A Samuel Merino
Se um lôstrego de luz atinge um corpo
existe apenas vibração a retumbar nos nervos.
Sem ter chegado a morte,
já nem sequer o medo se apresenta vivo.
Não há nem transparência nem opacidade
nas luzes que o cinema projeta sobre o nevoeiro.
Se pelo menos fosse um calafrio, um murro,
mas é surdez de si, miopia do espelho.
E quando as lágrimas se lançam na fervença
de um rio anterior ao conhecido,
afogando o desejo,
tudo o que somos se desfaz em salpicos.
A consistência da rocha fica invisível na névoa.
Qualquer forma intuída se transforma em refúgio.
A procura da máscara é um filme de terror
em primeira pessoa.
O silêncio é sinónimo de grito.
E no entanto está a música, a palavra nua.
A vista zenital que dá o poema.
É sempre a luz no olho
único chão sobre o que erguer-se.