Peguei no meu bastão e devegar fiz o percurso
que leva à cabana em que vivi tantos anos.
Os muros tinham desabado e agora era abrigo de raposos e coelhos.
O poço ao pé da mata de bambu tinha secado
e densas teias de aranha cobriam a janela onde costumava ler à luz da lua.
Os degraus estavam cheios de ervas selvagens
e um grilo solitário cantava no frio amargo.
Perambulei de forma interminente,
incapaz de afastar-me enquanto o sol se punha com tristeza.
(Ryôkan)
Na ladeira do
Kugami,
à sombra da montanha,
durante quanto tempo foi
esta cabana a minha casa?
Chegou o momento
de abandoná-la -
a minha memória vai esvair-se
como as ervas do verão.
Andei e andei à sua volta
num sentido e no contrário
e depois afastei-me
até que a cabana desapareceu
entre as árvores.
Enquanto caminho, continuo
a olhar para trás depois de cada curva,
voltando a vista para aquele lugar.
(Ryôkan)
Numa cabana em ruinas de três quartos
envelheci e abandonaram-me as forças.
O frio deste inverno é o
pior que já tive que passar.
Beberico papas aguadas, à espera que
passe a noite gelada.
Conseguirei chegar à primavera?
Incapaz de mendigar arroz,
como vou passar a friagem?
Nem mesmo meditar ajuda mais.
Nada a fazer senão compor poemas
à memória dos amigos mortos.
Ryôkan
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