Contrai-se o espaço
na matéria
e a matéria no verbo.
E no centro exato
do degradé, limite
de matéria e ideia,
existe só transparência,
linfa da palavra.
A poesia procura essa linha de vidro.
Mas a hipnose encarnada
navega nela
o dizer sem fronteiras,
água de ideias.
Depois, o tempo,
e volta a dissolver-se:
uma lâmina translúcida
molhada de imagens lateja
estouros de fonema,
submersos no mar
da palavra de vidro,
igual que a sensação
vibrante do mundo
na consciência.
E luz.
Em solidão espreito a cara branca da geada.
Não vai para nenhures, como eu não venho de nenhures.
Tudo passado a ferro, plissado, sem uma ruga:
a milagrosa planície que respira.
O sol franzindo os olhos perante a pobreza engomada -
a própria goma consolada, plácida…
o bosque decuplicado praticamente igual…
e a neve estala contra os olhos, inocente, como pão limpo.
Filhos do Tempo, hipócritas, os Dias,
parvamente cobertos, como dervixes descalços,
e marchando sozinhos numa fila infindável,
apresentam diademas junto a feixes de lenha.
Oferecem presentes consoante a vontade:
pão, reinos, estrelas, o céu que abarca tudo.
No meu jardim selvagem, olhei aquela pompa,
esqueci os meus votos matinais, prestamente
peguei em ervas e maçãs, e o Dia
virou e partiu em silêncio. Tarde demais,
eu vi, sob a solene febra, desprezo.