Ao anoitecer
muitas vezes subo
ao pico de Kugami.
Os veados lá em baixo,
oiço as suas vozes
submersas
em montes de folhas de bordo
que descansam imperturbáveis
ao pé da montanha.
Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.
A Manuel López Rodríguez A parálise do fantoche que os nanobots habitam não é causada pela queda inesperada da carga da bateria nem pela ferrugem das dobradiças nas articulações mecânicas. Foi antes a focagem da câmara ligada à nossa frente à máxima… …
A Samuel Merino Se um lôstrego de luz atinge um corpo existe apenas vibração a retumbar nos nervos. Sem ter chegado a morte, já nem sequer o medo se apresenta vivo. Não há nem transparência nem opacidade nas luzes que o cinema projeta sobre o nevoeiro.… …
A Silvia Penas Sentir a palavra na pele que não é pétala. Reconhecer o limite e a união: o impulso que move o impulso. O ponto infinitesimal que cose o mapa ao território. Uma leira, um baldio, um arame, um passado. A placidez da sombra na intuição do… …
Contrai-se o espaço na matéria e a matéria no verbo. E no centro exato do degradé, limite de matéria e ideia, existe só transparência, linfa da palavra. A poesia procura essa linha de vidro. Mas a hipnose encarnada navega nela o dizer sem fronteiras,… …
Em solidão espreito a cara branca da geada. Não vai para nenhures, como eu não venho de nenhures. Tudo passado a ferro, plissado, sem uma ruga: a milagrosa planície que respira. O sol franzindo os olhos perante a pobreza engomada - a própria goma… …
Filhos do Tempo, hipócritas, os Dias, parvamente cobertos, como dervixes descalços, e marchando sozinhos numa fila infindável, apresentam diademas junto a feixes de lenha. Oferecem presentes consoante a vontade: pão, reinos, estrelas, o céu que abarca… …
espasmo no meio do nada alguma cousa o ruido de martelos ao longe ou a pressão do corpo contra a cama recordos a construir imagens ou desejos a memória a inventar passados que sempre foram ou não realidades o fundo do olho que não constrói mais… …
tinha uma rosa no peito e passeava nas suas mãos o peso das gaivotas suspensas na garroa do verão e tinha nos pés as asas da andorinha nas virilhas o vento que as narinas pariam fresco e leve porque tinha uma rosa no peito e teias de aranha como pele… …
se a história é aquilo que os livros guardam porque a memória não chega e se todas e todos nós carregamos a história que é nossa muito além da memória consciente e se a memória é seletiva e todo o mundo sabe que a memória é seletiva que nos esconde o… …