Tento apalpar as sombras da expressão perdida.
Alguma coisa como um sonho antigo
salta p'ra as minhas mãos a mordiscar-me as gemas,
um insecto furioso mas pungente:
eis o processo que tansito agora.
(...)sou vosaltres qui heu fet / del silenci paraules(...)
Não quero escrever. Só Deus sabe quanto me apetece fazê-lo. Eu, que verti neste meio tudo o que me veio à cabeça. Eu, que mostrei a impudícia dos meus pensamentos sem medo, que ouvi tantas vezes a pergunta "mas como podes escrever tudo isso na internet?". Que até falei sem falar quando tinha coisas minhas que esconder. Eu, agora, com a todas estas certezas a me bater o crânio por dentro, com tudo o que sei que sei, mas não posso dizer para que alguém não leia. Alguém que quero, para minha desgraça. Eu incapaz de escrever seguido, porque me treme o corpo todo. Eu a carregar a culpa que não me corresponde. Eu a calar. Desculpem.
Lembro pouca coisa do sábado noite. Apenas começarmos a beber as duas garrafas de licor café que eu tinha levado, montar no autocarro de Montixelvo a Pego, sentado ao lado do Eduardo, e continuar a beber licor café. A partir daí é tudo névoa. Nalgum momento descemos do autocarro, eu e Eduardo continuamos a falar, dissemos as palavras mágicas, e lembro apenas que alguém me pegava na mão e dizia "vem, não te percas". Uma mão feminina, possivelmente mais de uma, que pegava na minha sem entrelaçar os dedos, apenas palma contra palma, e os dedos a abraçar o reverso quase sem se dobrarem. Lembro bem a sensação. Talvez fosse a Andrea, talvez a Maria, talvez a Mercé (que encontrei -lembro agora- quando eu estava perdido), ou talvez todas elas. Lembro, no entanto, ter lembrado isso mesmo no dia a seguir, e ter pensado que todas essas mãos eram uma e única, e que o realmente importante era que essa mão não era a minha, a que, adormecida ao volante do meu carro, começava a apanhar os restos da minha vida e a alçá-los