Costumava estar fascinado por como Ted Hughes retrata a beleza, misturada com a violência. Também me fascinava a facilidade para retratar a agressão, como impulso vital destrutivo para a sobrevivência. O Eros e o Tânatos. Acho que a fascinação nascia da minha incapacidade patológica para a agressividade.
Ontem publiquei neste blog o primeiro poema do primeiro livro de Hughes, em que narra como dá um tiro a uma magestosa águia. O seu primeiro poema será o meu último. Até aqui, Mr. Hughes. Obrigado por abrir-me os olhos ao contínuo vida-morte, mas há mais maneiras de vivê-lo, e tu és um puto animal.
Esses rebentos de ameixeira
costumavam flutuar no nosso saké.
Agora as flores
espalhadas, ignoradas,
jazem por todo o chão.
De vez em quando
também tu
deves ter saudades
do teu velho ninho
no fundo das montanhas.
Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. O título é meu.
Foto de Nijwam Swargiary em Unsplash
(Ryôkan)
Eu não te necessito.
Se não estás
estou sozinho ou com outras pessoas
e não se passa nada.
A tua ausência
não enche o coração de ausências,
porque a minha vida
não és tu.
O meu coração,
que tu tão bem conheces,
também não te pertence.
Afinal, estou a usá-lo
e necessito-o
também com outra gente.
Mas contigo estou melhor que sem ti.
Tu dás valor a coisas que antes nem considerava.
Há algumas que com mais ninguém
consigo compartir.
Contigo o coração é terno
mas não eterno.
Contigo é mais fácil sentir amor à vida
e talvez seja por isso
que a vida te ama
através de mim.
E isso
é
tudo.
E mais nada.