A Manuel López Rodríguez
A parálise do fantoche que os nanobots habitam não é causada pela queda inesperada da carga da bateria nem
pela ferrugem das dobradiças nas articulações mecânicas. Foi antes a focagem
da câmara ligada à nossa frente à máxima definição. A exatidão perfeita da retina em cada nanopíxel.
Tampouco é a marmelada causa
duma faísca solta que desencadeia o incêndio de pensar em alto. Nem
sequer os sonhos falam com a claridade da rede.
Os olhos buscam a luz com que os drones encadeiam a urbe.
O gosto de se sentir unidade em vez de zero. A sobrecarga
de nanobots de marmelada ingeridos com gosto.
A paralisia é consequência da tensão exata de todas as forças do desejo.
Escrevo-te da sombra
que o teu corpo projeta. Sou o selvagem que pisa o corpo das actínias.
Nesta felicidade estou só.
Quero pensar que existes.
Nanobots descarregam as histórias
que cada qual se conta. Para fazer sentido daquilo que o mundo escreve
reconstruindo outra vez a ideia base. Homeostase semântica.
O sentido é
o pensado.
Incluso a incoerência é
recursividade.
∞≈√𝛑.
A Samuel Merino
Se um lôstrego de luz atinge um corpo
existe apenas vibração a retumbar nos nervos.
Sem ter chegado a morte,
já nem sequer o medo se apresenta vivo.
Não há nem transparência nem opacidade
nas luzes que o cinema projeta sobre o nevoeiro.
Se pelo menos fosse um calafrio, um murro,
mas é surdez de si, miopia do espelho.
E quando as lágrimas se lançam na fervença
de um rio anterior ao conhecido,
afogando o desejo,
tudo o que somos se desfaz em salpicos.
A consistência da rocha fica invisível na névoa.
Qualquer forma intuída se transforma em refúgio.
A procura da máscara é um filme de terror
em primeira pessoa.
O silêncio é sinónimo de grito.
E no entanto está a música, a palavra nua.
A vista zenital que dá o poema.
É sempre a luz no olho
único chão sobre o que erguer-se.
A Silvia Penas
Sentir a palavra na pele que não é pétala.
Reconhecer o limite e a união: o impulso
que move o impulso. O ponto infinitesimal
que cose o mapa ao território.
Uma leira, um baldio, um arame, um passado.
A placidez da sombra na intuição do intuito
que vem de outra pele, mas se projeta nesta.
Continuidade também é crosta de ferida.
O exílio é a só existência de algo alheio.
O nada, a condição de necessidade para a fronteira,
quando o vazio se enche de punhadas.
Mas o corpo não tem cercas de arame. Só limiares.
Por isso o descampado é carne e o tempo existe nela.
Também existe o ponto infinitesimal que cose
o antes e o depois. Eis a pele do exílio:
uma pessoa, um tempo e um espaço. Ela.
A razão de ser da palavra: calafrios e cãibras,
expor e ser membrana, esmiuçar o limite
como objecto. Ver-se na transparência.